Interlúdio poético
Rio em rota astral
As saudades do imigrante são por vezes intensas de tal modo que sobeja a inspiração quando à lembrança advêm cenas do pretérito vivido em seu torrão natal. Todavia, ela mais ainda se acentua aquando o espírito se desprende da matéria transitória para uma digressão pelas dimensões vivas e muito mais definidas do plano onde estão assentes os arquétipos de cuja imagem a memória dos arquitetos se serviu nos limites do planeta físico. E a imaginação encarrega-se de conduzir o estro:
Rio em rota astral
Bem me lembro de ti, meu Rio amado,
Da rua Larga à praça Tiradentes
Onde das gafieiras tão frequentes
Provinham sons de um samba sincopado;
Da praia do Flamengo, quase ao lado
Em cujas águas plácidas e quentes
Os sonhos mergulhei com votos crentes
De regressar um dia ao meu passado.
Nas sendas de Ipanema já me vejo,
Haurindo a brisa que é do mar advinda,
Tal como era em menino o meu almejo
E no Metrô me apanho em rota infinda
Por estações além a pleno ensejo
De mais viver em sítios teus ainda.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
19/11/2009