Bocage e a espiritualidade (37)
Bocage escreveu:
(A criticar o deus dos embusteiros)
Um Ente, dos mais entes soberano,
Que abrange a Terra, os Céus, a eternidade;
Que difunde anual fertilidade,
E aplana as altas serras do oceano:
Um nume só terrível ao tirano,
Não à triste mortal fragilidade;
Eis o Deus, que consola a humanidade,
Eis o Deus da razão, o Deus de Elmano:
Um déspota de enorme fortaleza,
Pronto sempre o rigor para a ternura,
Raio sempre na mão para a fraqueza:
Um criador funesto à criatura;
Eis o deus, que horroriza a natureza,
O deus do fanatismo, ou da impostura.
Réplica:
Deus do fanatismo
O Deus de Elmano abrange intensamente
A Terra, os Céus, a vida em toda a parte;
Por clemência infinita dá destarte
De Si a criação, onipresente;
Em justa ação, perfeita e pertinente,
Consola os tristes, com saber e arte,
Distribui com justiça, o bem reparte
Igualmente entre todos, onisciente;
A onipotência ostenta, Criador
Do Universo, sobre as potestades,
Não fora delas o etéreo autor.
Da impostura o rei, das más vontades
Que o fanatismo impõe, algoz senhor,
Este é o deus das falsas entidades.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
08/02/2010