A Ferroviária em Portugal
Passava-se o ano de 2000, estava eu em Lisboa, exatamenrte na Praça da Figueira, quando por acaso, a título de uma informação de que necessitava naquela cidade, acabei por estabelecer diálogo com um senhor, “alfacinha”, como se diz dos nativos locais. Para minha surpresa, era um conhecedor profundo do futebol brasileiro, que admirava deveras. E mais surpreso fiquei ao perceber que o novo amigo conhecia a Ferroviária, pois a havia visto jogar em Lisboa, em 1960 e então me perguntava por que não se sabia mais nada aqui sobre a mesma. Escusado é dizer que passei o resto do dia em conversa com o cidadão, tentando explicar-lhe as razões do “desaparecimento” do noticiário daquele time que tanto encantara os portugueses, quando aqui se apresentou.
Deste diálogo, originou-se o poema que abaixo trancrevo, feito em homenagem à gloriosa Associação Ferroviária de Esportes, que, praza aos céus, há de estar de volta muito em breve aos noticiários internacionais.
À ASSOCIAÇÃO FERROVIÁRIA DE ESPORTES
Poema de um só canto
de
Antonio Carneiro (Bélier)
Um imigrante brasileiro, torcedor da A.F.E., em terras lusas.
INTRODUÇÃO
De outono algoz domingo o sol aquece
O lar querido e vem na tarde amena
À Fonte, onde deveras se entristece
Do amado clube ao ver tragédia plena.
Amargurado, esconde-se, esmaece,
Bradando aos céus, inolvidável cena:
“Aqui não moro mais, ninguém me ampara!”
E desce a treva sobre Araraquara.
I
Eu conheci nos tempos de criança,
Quando dos sonhos mil as cenas via
Nas brumas da mais sólida esperança
Um time que de encanto olhos enchia
De quem o visse, tal que na lembrança,
Jogar, o seu jogar permanecia.
E assim ficou famoso em toda a parte
Onde da bola se adejava a arte.
II
Era de longe, milhas afastadas
Do sítio onde eu morava, mas decerto
Assiduamente o tinha nas jornadas
Que, memoráveis, me falavam certo
Por ondas tropicais, rádio-captadas,
O longe assim tornando sempre perto.
Adepto então me fiz de pleno ensejo
De outros sempre em vantagem no cotejo.
III
Foi época do esporte memorável
No meu torrão querido esta que aponto
Em que com desempenho formidável
O mundo conquistou, de amplo confronto
A seleção, bi-campeã notável
Que fez o futebol de fadas conto:
Inexcedível tal o seu fascínio
Que todos os demais pôs em declínio.
IV
Os astros da pelota em grandes montras
Brilhavam no apogeu intensamente
Pelos estádios onde prós e contras
Lançavam-se com garbo condizente;
Do reino mundial a dar demonstras
Que o pleno poderio é lá presente:
O espetáculo que fez regalo
De quem pode de perto observá-lo.
V
E ali então no meio desta jaça
Inexcedível que ficou na história
Do esporte-rei, ao mundo erguendo a taça
Em cena assaz presente na memória,
Que o time de que falo, ar de chalaça,
Impôs-se com insuperável glória
E só não foi dos píncaros primeiro
Por não ter influência nem dinheiro.
VI
Transpôs limites nacionais a classe
Com que requinte dava à sua arte,
Mostrando a quem o visse ou enfrentasse
Ápice de valor que assim destarte
A mais alto jaez se consagrasse
O nosso futebol em toda a parte:
Imagem que ficou, inda lembrada
De tantos a quem foi apresentada.
VII
Disto dou testemunho hoje concreto
Quando me ausento por labor instado
E venho à pátria mãe onde é dileto
Dos brasileiros que aqui têm estado
O recordar, cheio de amor e afeto,
E glória que aqui tenham conquistado;
Assim a comprovar que na memória
Ficou daquela equipe e bela história.
VIII
“_ Ó gajo! És da Ferroviária, eu sei:
Vi-vos aqui jogar lá no Restelo,
De vosso futebol tanto gostei
Que ao Alvalade fui tornar a vê-lo:
À Luz não pude ir, mas toda a grei
Quedou-se a vosso grupo de dizê-lo
Hábil ao definir no trato à bola
Padrão de jogo de fazer escola.
IX
Até nas Antas, onde não vencia
Há muito tempo algum adversário
Foi lá jogar teu time e conseguia
Do Porto sobejar aprumo vário
Num jogo memorável que viria
A ter interessante corolário:
A taça que era ali então mantida
Foi aos de Araraquara oferecida.
X
E soube mais, que além o mundo andastes
A levantar de vosso povo a fama
Ainda mais, que tanto conquistastes
Em sítios cuja glória se proclama
Qual sempre e hoje também por cá deixastes
A voz unânime que a grei exclama:
Eis do país irmão soberba gente
Que arte do futebol pratica, ingente.
XI
Explica então, porém do que sabemos
Por mídia do que vos aconteceu,
Pois pelos poucos que nós entendemos
Muito de vossa glória esmaeceu
Por quem, ouvimos, mas não conhecemos
Vos tem ultrapassado e arremeteu
Aos últimos lugares da tabela
Do campeonato, qual nos chega à tela.
XII
Mogi, Araçatuba e outros mais
Que cá não conhecemos mas valia
Terão, pelo que lemos, e jamais,
Tanta que então uma sequer porfia
Levá-los de vencida o consigais
Da disputa como vos competia:
Posto que a fama vossa impõe haver
Necessário por brio de manter,
XIII
Terão estas equipes tal valor
Em campos de contendas conquistado
Que opróbrio assaz ingente vos impor
Seja delas o corriqueiro fado
Ou tanto se ofuscou o tal fulgor
Grado das culminâncias do passado
Que hoje de abrolhos na ingrata via
O vosso andar acaba e principia?”
XIV
Entristecido, ouvi do lusitano
Que ama o futebol e o prestigia
Como qualquer de nós, em mesmo plano,
Pois cá também jamais se principia
Qualquer conversa em todo extenso ano
Sem o desejo assaz e a alegria
De discutir do esporte preferido
A comentar o clube mais querido.
XV
Então contei-lhe sobre anos além
Após aquela equipe que adulara
Como tantas formamos e também
Dos seus artistas que de estirpe rara
Da bola se lançaram qual ninguém
À glória, a sublimar Araraquara;
Celeiro memorável onde instava
De jogadores que ao Brasil mostrava.
XVI
Disse do nosso time memorável
Que em sessenta e nove foi terceiro
No campeonato por teor instável
Das arbitragens, como era soeiro;
Da taça dos invictos, formidável
Êxito que nos fez impor primeiro
Ante outros poderosos que decerto
De nosso andar quiseram chegar perto.
XVII
E do respeito que sempre imputava
A nossa AFE ao visitar terrenos
Alheios, onde só se comentava
Como árduos seriam, pouco amenos
Os jogos contra nós e se apontava
Em jeito de humildade em tais comenos:
“_Ora, que se empatarmos já seria
Um resultado que bem serviria.”
XVIII
Porém os anos foram se passando
E o futebol também se transformou:
Novas idéias plenas, se lançando
De maus anelos e tal fomentou
Dos dirigentes de quem cobiçando
A fama antes só sua, cobiçou
E esta cobiça atroz foi conselheira
De agouro mau, terível companheira.
XIX
A cartolagem, como lá se fala,
Criou critérios hábeis de fazer
Perpetuar-se em ampla, longa escala,
Em postos de prestígioe assim poder
Dispor dúbios conceitos a dar pala
De alguns a seu jaez favorecer:
Não fora o paraíso aquela terra
Da vil politicagem que ali berra.
XX
Fizeram grupos novos, divisões,
Séries a situar no mesmo plano
Tanto os que conquistaram escalões
Com lutas e valores, ano a ano
Como outros, convidados, rufiões
De alheias plagas, a anelo profano
Que faz de igual valer o conquistado
Ao que de iníquo ensejo seja instado.
XXI
E assim os dirigentes se fizeram
Perpetuar nos cargos, na permuta
De votos por favores que apuseram
Da iniquidade o prêmio de quem luta
Por digno merecer e compuseram
A fórmula odiosa da disputa
Hoje capaz de impor o Araçatuba
Na divisão maior, que lá não suba.
XXII
Disvirtuar também neste cenário
Vieram grupos fortes, financeiros,
Que times fabricaram, corolário,
Com seus prestígios, com os seus dinheiros.
Criou-se imagem do clube-empresário
Capaz de se instalar entre os primeiros
Sem sequer um atleta possuir
Que nesta fama o faça prosseguir.
XXIII
Falidos clubes formam times fortes
De alheias fontes o recurso instando
E nesta guerra infame impõem sortes
Aos que tentam vitórias trabalhando,
Da honestidade impondo contrafortes
Que limitam de meios o seu mando:
Eis, é melhor viver de frente erguida
Que de vergonha vê-la empedernida.
XXIV
E nisto, caro amigo lusitano,
Nisto temos orgulho de o dizer,
O nosso clube é forte, é de bom plano
E sempre faz cumprir o bom dever:
Jamais se apôs vulgar e doidivano,
Modelo é de cumprir, de proceder,
E este cartaz maior tem hoje em dia
Que outros não podem ter, em maioria.
XXV
Mas tudo enfim, de si não justifica
A desastrosa ação de nosso time
Que por três anos já não se abdica
De mal acompanhar quem não se exime
Aos últimos lugares, não se explica
Que a Ferroviária assim colime
De não ser rebaixada única meta,
Aspiração ridícula e discreta.
XXVI
Dizem até que o sol, qual reza a lenda
Que em Araraquara faz morada
E em tardes de domingo vinha à senda
Do campo apreciar cada jornada,
Fez-se de ausente da nobre vivenda,
Pondo-se atrás, sutil, de núvem cada
E o sítio ensolarado de outras eras
Hoje é de sombras pleno assaz, deveras.
XXVII
Queira porém, prezado companheiro,
Por o que vou dizer em sua agenda:
Imbuídos seremos tempo inteiro
De regressar à elite e assim se entenda
Que já de próximo lugar cimeiro
A disputar, cuja melhor contenda
A cada prélio faça merecida
Mui breve a ascensão apetecida
XXVIII
Então em Portugal e em toda a parte
Onde se fez famosa a nossa escola
Dirão a uma voz: É bom destarte
Saber que no país dos reis da bola
Ressurge, Fenix qual, e se reparte
Em brilhos ainda mais de intensa tola
Que antes, a Asociação Ferroviária
Famosa, ingente, extraordinária.
Obs.: Refira-se, uma vez mais, que este poema foi escrito há sete anos atrás, exatamente em julho de 2000, ocasião em que a situação de nosso clube era bem menos conseguida do que atualmente, quando podemos dizer que há um trabalho sério em desenvolvimento, do qual estamos a colher os primeiros resultados, bem expressos na conquista da Copa da FPF e da ascensão à série A2, de recente obtidas.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
17/06/2007
Sunday, June 17, 2007
Sunday, June 10, 2007
Aznavour, um gênio
Shahnour Vaghinagh Aznavourian, nome de baptismo de um gênio, artisticamente conhecido como Charles Aznavour, nascido a 22 de maio de 1924 e ainda em plena atividade, apesar de seus 83 anos de idade.
Após ouvi-lo, é impossível não dizer algo sobre a descomunal carreira deste incomparável artista, cuja atividade foi impulsionada pela extraordinária Edith Piaf, que, ao conhecê-lo, de imediato levou-o consigo para uma “tournée” pela França e pelos Estados Unidos. A partir de então, o mundo rendeu-se ao gênio, que interpreta as suas próprias músicas, as quais já se contam por mais de um milhar.
Poliglota, expressa-se em francês, inglês, italiano, espanhol, alemão, russo, armênio e português, para além de conhecer a linguagem gestual dos surdos. Participou em mais de 60 filmes e já venceu por uma vez a Elvis Presley na votação para artista do século (versão CNN), insólito episódio na história da música popular.
A nosso ver, porém, o seu maior mérito reside na missão humanitária que organizou em prol das vítimas do terremoto ocorrido na Armênia, país de suas raízes, em 1988, a fundação “Aznavour pour L’Arménie”.
Ao som de “Hier encore”, um de seus inolvidáveis sucessos - e que a mim também faz refletir: “Hier encore, j’avais vingt ans…”, bons tempos aqueles - que ontem estive a ouvir, compus o soneto que se segue, como justo tributo ao genial Charles Aznavour:
A Aznavour, um gênio
Foi “Hier encore” que ouvi-te o canto triste
“Comme ils disent”, pelo planeta afora,
De “Paris au mois d’aût” a Pirapora,
A enaltecer o que mais belo existe.
“Non, je n’ai rien oublié”, teu dedo em riste,
Cantando aos surdos e a cantar embora
“Mon émouvant amour” à mesma hora
O “Inoubliable” encanto que te assiste.
“Ils sont tombés”, mas, comoventes cenas,
“Il faut savoir”, com Deus te inspiram fundo
De Armênia, por compor canções centenas,
Tão pobre e rica, que és de lá oriundo.
“Et moi, dans mon coin”, cá, diria apenas:
És um dos poucos gênios que há no mundo!
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
Sunday, June 3, 2007
Trompete,. amigo dileto
Trompete, amigo meu, e companheiro
Das horas longas deste meu caminho,
E tristes mais até, que, comezinho,
Percorro em digressão ao mundo inteiro:
Às vezes dedicado mais, obreiro
Por conhecer segredos teus azinho,
Outras de pouco ensejo, ao remoinho
Da vida em seu louco cursar useiro;
Tu foste a voz com que falei decerto
E aprendi a conter de baixo som
No curto espaço de outros também certo
E hoje, ao ver teu velho estojo, e bom,
Devo dizer que és parte já, por certo,
Do ser que sou, de Deus precioso dom.
Harry James, “trumpet master”
Nos idos de 1915, Everette Robert James, “band leader” e primeiro trompete da orquestra do Mighty Haag Circus, desposou Maybelle Stewart Clark James, uma trapezista do mesmo grupo circense e, deste consórcio, em março de 1916, nasceu Harry James, a quem o pai ensinou a tocar na banda, desde os seis anos de idade, primeiramente ao tambor e mais tarde como trompetista.
O talento do jovem músico, todavia, excedia os limites da lona ambulante que albergava os espetáculos de tão humilde palco e projetou-o a vôos bem mais altos, rumo à imortal carreira de um dos maiores ícones da música popular e do jazz em todos os tempos.
Aos 12 anos já se tornara maestro e primeiro trompete da banda de outro circo bem maior, o Christy Brothers Circus, enquanto estudava de escola a outra, consoante as digressões o permitiam, até concluir a “HIgh School”. Aos 14 venceu um concurso estatal como trompetista e desde então passou a tocar como profissional em bandas do Texas, até que em 1935 foi contratado para a orquestra nacional de Ben Pollack, de onde rapidamente passou à grande e famosa (ainda hoje) “big band” de Benny Goodman, onde pode gravar várias obras primas da música ligeira pela Brunswick Record, mais tarde absorvida pela Columbia Records.
No início de 1936, formou a sua própria orquestra, na Philadelphia e desde então passou a tocar com grande sucesso em digressão pelo país, havendo lançado notáveis músicos e cantores, entre os quais o até então desconhecido Frank Sinatra, que com ele atuou até 1939, quando foi contratado por Tommy Dorsey.
Aos sabores dos interesses comerciais das gravadoras, eis que havia deixado a Columbia para gravar com a Varsity Records, mudou o estilo da banda, acrescentando cordas para dar-lhe um estilo mais melódico, ao tempo em que era de novo contratado pela Columbia, manobra que acabou por não ter bons resultados.
Todavia, os anos quarenta colocaram-no como expoente máximo do solo no trompete, imortalizando temas tais como “Music Makers”, “Lament to Love”, “You made me love you”, “Strictly Instrumental”, entre outros, já para não falar de “Manhattam Serenade” e da lendária gravação de “Sleepy Lagoon”, até hoje considerada como o mais belo solo de trompete jamais executado.
Participou também de vários filmes, dos quais o mais famoso foi “Young man with a horn”, no qual emprestou sua música ao artista principal, Kirk Douglas, que representou ao lado de Doris Day, em 1950. Da trilha sonora deste filme, impossível é não lembrar de “Melancolic Raphsody”, “With a song in my heart” e o sempre diferente “Moanin’Low”.
A sua fama mundial levou-o nos anos 50 a ter um programa próprio na televisão, “The Harry James Show” e a digressões pelo mundo que continuaram, ao lado dos sempre requisitados shows ao vivo, principalmente em Las Vegas.
Em 1981, tive oportunidade de vê-lo ao vivo, com sua “big band” em duas apresentações na sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, das quais guardo ainda preciosa gravação.
Partiu para a pátria espiritual em 1983, vítima de câncer linfático, atuando ao vivo até nove dias antes de terminar sua gigantesca missão neste plano, para glória de Deus através da música, continuando a sua orquestra a apresentar-se sob o comando do também brilhante trompetista Art Depew.