O caos no Brasil e a Lei do Carma
(Poema em canto único, dedicado humildemente às vítimas dos maiores acidentes aéreos ocorridos no Brasil em menos de um ano) Introdução O inexcedível Rei imaculado Ontem pregado à cruz, nefasto crime, Hoje é por seus verdugos implorado A minorar a dor que os deprime. Do alto os contempla, como contemplado Do lenho havia, a culpa lhes exime Como antes, vendo os faustos inimigos Ao carma atados, qual revéis mendigos. I Com lúgubre expressão, pesado ensejo, Da pátria mãe percorro estreitas vias E o pensamento voa, do que vejo Em tristes cenas, lágrimas sombrias, Do meu país, da prece em vão almejo, Contrito, a suplicar de paz os dias Que já vivi quando a vergonha dava Primevo fulcro a quem o governava. II Pelo caminho passam conterrâneos Muitos, do linguajar é fácil vê-los, Que dos cenários pátrios sucedâneos Buscam para na vida, sucedê-los, Dura do imigrante, em instantâneos De melhor vida, que de conhecê-los Não lhes deixou a pátria tão querida Hoje a ser assim tão mal conduzida. III Lembro-me então de minha velha escola, Do hino nacional que se entoava Antes de entrar em sala e não consola Ouvi-lo hoje partido, a meia trava, Aqui e em lados outros, vil charola, Um desrespeito que a ninguém agrava, Qual dividido andor das procissões, Quando é tocado nas competições. IV Ama com fé e orgulho, lá eu lia, Do genial poeta, a terra amada, Que não verás outra capaz, dizia, De ser com ela a longe comparada; E tal dizer nos peitos incutia Pueris, uma lição de preito instada: Que ensina amor e fé ter pela terra Cuja grndeza tanto alvor encerra. V Que é de ti, esplêndido gigante, Eternamente à luz do céu profundo Deitado, o sentimento imposto, diante, Por esta gente atroz, de todo o mundo? Como manter, desgraças tantas ante Dos filhos teus o orgulhar jocundo Com que já impuseste em tempos idos O teu valor por louros merecidos? VI Como dos outros esconder tragédias, De ações irresponsáveis consequência, Como não deixar ver as soltas rédeas Do crime organizado cuja essência Aflui sempre das mãos de quem concede-as Para favor manter em permanência De desfalcar os cofres da nação Sem por ela interpor qualquer ação? VII Como tirar das telas, mundo afora, A hecatombe hedionda apresentada Que toda a humana gente choca, embora Aos responsáveis não comova nada, Hábeis de se eximir de culpa agora Para não ver depois prejudicada Uma eleição futura, vis verdugos A flagelar seu povo com tarugos? VIII Latibular ao mundo o desespero De quem teve seus entes dizimados E nem pode escusar-se ao destempero Dos que se põem da dor latibulados, Que o pranto alheio dão por exagero, Da autoridade em cátedra albergados, Terá retorno, punição devida Quando não nesta, certa, em outra vida, IX Que a lei do carma é condição eterna Para evolver os homens, coibi-los, Cuja ação neste mundo se consterna Quando os deveres, deixam de cumpri-los Na posição que ocupam, hodierna, Indiferentes, faustos e tranquilos, Por que venham provar da mesma taça Onde hoje os outros bebem, da desgraça. X Isto é sabido, lei etérea, isenta De um julgar qualquer, creia-se ou não, Mas para já, o que nos apresenta Este contexto, esta situação? O caos do desgoverno que aumenta A angústia e o medo da população A qual, se não reage, cumplicia Com o descaso, a inércia, a anarquia. XI Correr, talvez, para as rodoviárias Será, provavelmente, ineficaz, Que estradas há, porém das mais precárias Onde o perigo espreita, ímpio, roaz; E de serviços das concessionárias De lucros o apetite é tão voraz Que postergar a segurança vão Em ônibus bem mais que em avião. XII Difícil é prever, pois, qual futuro Reserva à pobre gente atroz destino Do meu país, talvez inda mais duro, Hábil de impor a alguns o desatino; Mas é mister da esperança o auguro Manter mesmo que a surto clandestino, Pois desistir da luta é condizer Com o carrasco que nos faz sofrer. XIII Até que um dia séria gente imponha À governança a honestidade e venha Resgatar da nação brio e vergonha Por soltá-la do ciclo desta azenha. Há de então por que toda a gente sonha A alvorada brilhar no céu que empenha A mais intensa luz, áurea, risonha, Que há de iluminar a pátria amada De seu porvir na gloriosa estrada. Antonio Carneiro (Bélier) V.N.Gaia - Portugal 08/08/2007