Ah, Camões! Na sofrida madrugada que sucedeu o jogo, no qual mais uma vez entregamos o ouro ao bandido, aparece-me Camões, o magistral poeta a quem Bocage considerava - e não sem razão, digo eu - como inexcedível mestre. Trazia nas mãos uma pena de urubu e reportava-me, junto à idéia do abutre, ao cotejo da minha tristeza com a mágoa que teve ao perder a sua Dinamene: Ah, minha Dinamene! Assim deixaste Quem não deixara nunca de querer-te! Ah, ninfa minha, já não posso ver-te! Tão asinha esta vida desprezaste! Como já para sempre te apartaste De quem tão longe estava de perder-te? Puderam estas ondas defender-te Que não visses quem tanto magoaste? Nem falar-te somente a dura morte Me deixou, que tão cedo o negro manto Em teus olhos deitado consentiste! Oh, mar! Oh, céu! Oh, minha escura sorte! Que pena sentirei que valha tanto, Que inda tenha por pouco viver triste? Reza a tradição que os sonetos de Camões dedicados a Dinamene foram escritos em memória de uma escrava chinesa, cujo nome Ti-Na-Men fora assim transcrito para o português. Esta possível amante do grande poeta terá morrido no célebre naufrágio na foz do rio Mecom, do qual salvou-se Camões, juntamente com os manuscritos do poema épico “Os Lusíadas”, a obra maior da língua portuguesa, que resguardara das águas com uma das mãos, enquanto nadava com a outra. É também dedicado a Dinamene o célebre soneto “Alma minha, gentil, que te partiste…”, talvez o mais famoso de nossa prezada língua, que foi uma paródia (no bom sentido) do poema de Petrarca: “Alma bela, liberta daquele nó…”, numa aproximação ao português. Sabe-se, todavia, que Dinamene é o nome de uma das nereidas (sereias), como também refere a lenda, do rio Tejo, que banha Lisboa, e de onde saíram os navegadores para os grandes descobrimentos. Assim o refere a poesia de Garcilaso de la Vega, famoso guerreiro e poeta espanhol que viveu no princípio do século XVI, bem como o próprio Camões em duas de suas éclogas. Ora, no prélio de ontem, ganhávamos por dois a zero, já em compridos minutos do segundo tempo e eis que o Robson, que era o nosso melhor jogador, autor de um gol e da assistência para o outro, resolve armar-se em tolo diante da ridícula figura do árbitro, dando-lhe assim o desejado motivo para excluí-lo de campo. Ficamos em nove contra dez (pois o lambuz de apito já havia feito a lambança de expulsar sem motivo um elemento de cada lado)e aí os espaços sobram demais, tal como um jogo de bola de meia, como antigamente se jogava. Pronto, lá se foi a vitória pelo ralo de nossa própria estultícia, levamos dois gols e o Elefante sai todo satisfeito da arena alheia. Que m…! Não sei quem defende os interesses da Ferroviária junto à F.P.F. , mas, seja lá quem for, parece que dorme sempre no berço esplêndido da boa fé, de tal sorte que, seja em casa ou fora, os árbitros decidem sempre para os outros e contra nós. Se vamos com esta filosofia bonachona enfrentar as feras da A2, adeus viola. Atenção, mais uma vez refiro, futebol não se ganha só no campo… E diante da minha compulgente tristeza, que o Camões compara à sua, parodiei-o do seguinte modo: Ah, Camões! (2X2 ao Linense) Ah, meu time insensato! Assim deixaste Quem não deixara o jogo de vencer-te, Que empate é em derrota o converter-te, Tão asinha a vitória desprezaste! Como já para sempre te apartaste Do triunfo, apressando de perder-te? Os árbitros puderam defender-te Que não visses que tanto me magoaste? Nem falar, se tentasse, da má sorte Me deixas que tão cedo o desencanto Em mim e na torcida consentiste! Oh, céus! Oh, dor! Oh, mais que nos conforte! Que pena mais sentir que valha tanto Qual esta de deixar-nos sempre triste? E.T. O verso 7 de ambos os poemas alude ao mesmo significado, ressalvando-se as duas situações: O mar pode evitar que soubesses como me magoaste, no soneto de Camões, assim como: Os árbitros puderam evitar que soubesses como me magoaste ( a mim, no meu soneto). Isto numa alusão ao que já é costume: os árbitros sempre a roubar-nos. Antes que alguma crítica se faça, esclareço que a aparente inconguência de meu último verso, no qual o final epíteto é singularizado, explica-se por tomar-me eu como o portador a representar toda a tristeza que ultimamante toda a massa grená experimenta. Antonio Carneiro (Bélier) V.N.Gaia - Portugal 23/09/2007