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Noite de mau agouro
Ao ouvir o relato do malfadado jogo de ontem, na chuvosa e fria madrugada lusa, escuridão fechada tal como o nosso horizonte atual, ocorreu-me de lembrar uma fábula de Phebo, intitulada “As rãs que queriam um rei”. Resumidamente é assim: “Uma comunidade de rãs vivia num lago, em paz e sossego, quando certo dia começou a preocupar-se porque não tinham um rei. O descontentamento cresceu entre elas e de tal modo que formaram uma comissão para ir ao deus Júpiter reclamar. Queriam ter um rei. O deus Júpiter perguntou-lhes (aos membros da comissão) se não viviam bem, em paz, sem rei. Para que querem um rei?
Mas as rãs replicaram que todas as comunidades tinham um rei, menos a delas e insistiram no pedido. O deus Júpiter, já meio chateado, resolveu atendê-las, dizendo: Amanhã de manhã, no centro do lago, olhai e reverenciai o vosso rei. Eu lá o colocarei. Esperançosas, as rãs foram dormir e na manhã seguinte encontraram uma vara comprida, acimada de uma coroa, no centro do lago. Satisfeitas, passaram a reverenciar o rei assim obtido e assim foi durante alguns meses.
Todavia, decorrido um tempo, algumas delas começaram a falar mal do rei: Este rei nada faz. Passa os dias imóvel no lago, nada responde ao que se lhe pergunta, não toma nenhuma iniciativa etc. Ora, cresceu o descontentamento com o rei e, com ele, as novas queixas: Este rei não serve. Queremos outro rei!
Criado tal clima, muitas conversas sucederam e nova comissão foi formada para outra audiência com o deus Júpiter. E lá foram outra vez. Júpiter, já de “saco cheio” com as importunas rãs ainda ponderou: Que mal vos fez o rei? Ao que elas responderam; nem mal nem bem, o rei não serve para nada. Queremos, exigimos um novo rei. E tanto falaram e se queixaram que Júpiter determinou: Pois bem, amanhã de manhã, no lago, vos aparecerá um novo rei.
Satisfeitas, as rãs dormiram naquela noite e, ao despertar, cuidaram logo de ver qual era o novo rei. Surpresa! Depararam com um crocodilo, que as devorou uma a uma.”
Bem assim me lembrei porque, quando tínhamos o Édison Só como treinador, muitos se queixavam: Queremos outro! A mudança veio e o que vemos? Até o enjeitado cauteleiro Márcio Ribeiro vem nos lapar uma cacetada em plena Fonte Luminosa. Pode?
0×2 ao União São João (Araras)
(Noite de mau agouro)
Mal parco sono o vate concilia
Do umbral as hostes vêm, agras, torvá-lo:
De corvos se ouve coro que, ao grasná-lo
Anima um mocho lúgubre, que pia:
Turvo expressar na madrugada fria
Faz-se sentir e sonho por torná-lo
Infausto pesadelo, que em sonhá-lo
Uma tristeza atroz induz o dia.
Prenúncio tal da Fonte instou aviso
Na noite de leteia escuridade,
Do nosso time exibição funesta
Que o falaz treinador, com pouco siso
Urdiu, que já nos põe com brevidade
Nas cãs, se outra repete igual a esta.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
17/04/2008