Imenso cagatório
(para cães)
Convenhamos, não é nada agradável pisar em excrementos de cães espalhados pelos passeios públicos. Muito menos quando se está a passear por um lugar cujos pontos de referência não só turística como de qualquer âmbito devem ser apreciados com atenção. Ora, infelizmente quem hoje caminha pelas ruas de Lisboa já não pode mais limitar-se a apreciar as belas e poéticas imagens que a cidade apresenta, posto que arrisca-se a voltar a casa com os sapatos cheios de bosta, depositada não somente pelos cães vadios e até mais ainda pelos animais de estimação, como pudemos constatar. Não se pode admitir que pessoas ditas civilizadas andem pelas ruas a promover tal descalabro, ao ponto de obrigar os transeuntes a caminhar com os olhos pregados ao chão para não levar com indesejáveis presentes fecais, como se dia por cá, “de borla”.
Ah, Lisboa, menina e moça tão borrada pelo desgoverno que nada se interessa senão de seu interesse em perpetuar-se no poder, fenômeno que não tem contornos só alfacinhas, mas que graça por todo o país, desde os mais altos escalões governativos ao “pagode” em geral. Eis que o civismo, desde há muito ausente nas atitudes das populações, nada mais é do que o reflexo da irresponsabilidade de quem manda, disto não tenhamos dúvida. Isto se vê nas escolas (eu que o diga…), nas repartições, nos bancos, nas lojas comerciais, em todo o lado.
Lembro-me de uma vez, em l954, era eu garoto e conhecia uma senhora inglesa que morava no Rio de Janeiro, a qual, lá acostumada, viera passar uns dias em Lisboa. Disse-me então - e bem me lembro - que no Rossio adquiriu um doce numa loja e, depois de comê-lo, atirou com o seu invólucro de papel ao chão. Imediatamente, um policial abordou-a, advertindo-a sobre a sua má atitude, só não lhe aplicando a devida coima porque percebeu tratar-se de cidadã estrangeira. Ora, hoje o Rossio, bem pude ver, transformou-se num autêntico caixote de lixo, imensa “badalhoquice” urbana, como também se diz por cá. Intriga-me, outrossim, a acerba crítica que tanto se lança sobre os governos de então. Será que eram tão piores que os atuais? O “Santa Comba” terá sido tão ruim?
Imenso cagatório
Metamorfose esdrúxula e soez
Cuja expressão do senso bom se afasta
E a um destino vil o sítio arrasta
Desta Lisboa mais de cada vez
A um chiqueiro vasto, insensatez
De autarcas e costumes de quem basta
Ganhar as eleições ou parca pasta
Para fornir dos vícios o jaez.
Menina moça outrora, hoje andrajosa
Das porcas pixações, do vexatório
Lixo de esquinas mil, em verso e prosa,
Pelas paredes toscas, peremptório
E feio, a converter-se, triste glosa,
Dos cães em largo e livre cagatório.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
31/12/2008