O Quinto Evangelho
(Didymos Thomas)
Sentença 21:
Disse Maria a Jesus: Com quem se parecem teus discípulos? Responde Jesus: Parecem-se com garotos que vivem num campo que não lhes pertence. Quando aparecerem os donos do campo, dirão estes: Deixai-nos o nosso campo. E eles desnudam-se diante dos referidos proprietários e lhes deixam o campo.
No campo alheio à alma deste mundo,
Que não é dele a sua natureza,
Vive ela uns anos, de elementos presa
De seu jaez do nascimento oriundo
Até à cova onde o moribundo
Despe tal manto e volta à sutileza
Do orbe de onde veio, finda empresa
Em que empenhou trabalho assaz jocundo.
Dolosa experiência instou passar
No trânsito penoso desta senda
Que tão custosa foi de ultrapassar,
Porém essencial a quem pretenda
Evoluir na essência, a colimar
O próprio Eu, sua real contenda.
Sucinto comentário:
A alma humana passa pelo mundo físico ao qual não pertence, até que se dispa de seu veículo de locomoção neste espaço, tal como os meninos de um campo alheio. Todavia, esta passagem é necessária ao evoluir do espírito, o Eu maior como dizemos, tal como uma escola é necessária ao estudante que queira evoluir. Há que retirar deste ensinamento uma fulcral diretiva, hábil de nortear o procedimento humano: o “emigrante do além” não se deve apegar aos bens mundanos, que não são seus, pois irá deixá-los quando se for; deve, sim, servir-se deles em prol de sua mais rápida ascensão espiritual.
Obs.: Soneto escrito sobre o Oceano Atlântico, na altura da Bahia, na viagem do Porto para o Rio de Janeiro, em 18/07/2009
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
26/04/2009