Bocage e a espiritualidade (3)
Bocage escreveu
(Para celebrar as graças de Elmira)
Os suaves eflúvios, que respira
A flor de Vênus, a melhor das flores,
Exalas de teus lábios tentadores,
Ó doce, ó bela, ó desejada Elmira;
A que nasceu das ondas, se te vira,
A seu pesar cantara os teus louvores;
Ditoso quem por ti morre d´amores!
Ditoso quem por ti, meu bem, suspira!
E mil vezes ditoso o que merece
Um teu furtivo olhar, um teu sorriso,
Por quem da mão formosa Amor se esquece!
O sacrílego ateu, sem lei, sem siso,
Contemple-te uma vez, que então conhece
Que é força haver um Deus e um Paraíso.
Réplica:
Onipresença olvidada
O amante, que na coisa amada afeta
A essência divina projetada,
Nela enxerga, entre as mais, acentuada,
Qualquer virtude de teor completa:
Seus olhos hão de só sentir por meta
A deusa de seu sonho imaginada,
Em núvem de alto albor alveolada
Para onde seu anelo se projeta.
Absorto nesse assaz deslumbramento
Para o tirar do âmbito terreno,
Que é virtual, mas hoje é seu sustento,
Olvida-se de que na obra é pleno
O Criador, em tudo instado, evento
Essencial de todo instante ameno.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
29/09/2009