Setúbal - A musa em férias
De nossa recente passagem por Setúbal, o pátrio Sado segundo o mais expressivo vate que a língua portuguesa conheceu, algumas produções que lá foram urdidas, a maioiria sob o monumento ao poeta, enquanto as melgas não nos expulsaram de lá, erigido na praça do Bocage, exponho-as a vossos olhos, ó leitores, parodiando um famoso e encantador verso do próprio Elmano, introdutório de sua não menos famosa publicação “Rimas de M.M.Barbosa du Bocage”:
Nada de novo
Mais uma vez me vejo aqui na praça
Onde te erguido foi o monumento:
Uma vez mais deploro neste evento
O descaso com que se lho devassa.
Pelas cordas da lira já sem jaça,
Que a erosão corrói no desalento
Do descuido, rompidas pelo vento
Deduz-se o descalabro que se passa:
Pífia manutenção, não rotineira
Dá mote no contraste descabido
Com que o fulgor das quadras à maneira
Do teu estro imortal cujo sentido
Faz brilho ao verso em volta da sujeira
Onde teu vulto ingente está metido.
Setúbal, escrito em 27/08/2009
Café Bocage
Sadina sociedade, eis não diferes
De outras pelo país afora, em nada:
A mesma condição esvaziada
Das toscas mentes com que te referes;
Conversas flácidas que o jus auferes
De uma uniforme opinião gerada
No âmbito da vida conformada
Que em nula ação triste jaez inferes.
Do ilustre filho, em berço cá embalado
Nada se vê, senão alegorias
De anúncio pelas lojas apontado:
Café Bocage, e talho, e padarias,
E tanto mais, que do homenageado
Ninguém conheça as lautas mais valias.
Setúbal, escrito em 20/08/2009
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
02/09/2009