Bocage e a espiritualidade (12)
Bocage escreveu:
( Para Lília, linda jovem, de rara virtude, morta na flor da idade)
De homens e numes suspirado encanto,
Lília, inocente como virgem rosa,
Lília mais branda, Lília mais formosa
Que a ninfa etérea, de puníceo manto;
Eu, e os Amores, que perderam tanto,
Damos-te às cinzas oblação mimosa:
Curva goteje minha dor saudosa
Na mole of`renda, que requer meu pranto:
Em teu sagrado, perenal retiro,
Disponho ao som de lânguidas querelas
A rosa, o cravo, a túlipa, o suspiro:
Medrai no chão de amor, florinhas belas…
Ah! Lília, eu gozo o Céu!… Lília, eu respiro
Tua alma pura na fragrância delas!
Réplica:
Flores em chão de amor
A morte para o mundo inspira aqueles,
De uma inocente alma, cujo almejo
Consiste em resgatar o puro ensejo
De algo ressaltado assaz por eles;
Por demonstrar que só sobeja neles
O valorar da essência no cotejo
Entre os valores vãos do vão desejo
E as coisas simples dos exemplos deles:
Ao almejar que medrem flores belas
Em chão de amor, metáfora inspirada
Para lembrar da morta por aquelas
De que a fragrância tem de respirada,
O vate fá-la viva, que por elas
Será sempre destarte bem lembrada.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
31/10/2009