Bocage e a espiritualidade (8)
Bocage escreveu:
(Solidário na morte de sua amada)
Perdi tudo (ai de mim!), perdi Marfida,
Marfida, a glória minha, a minha amada;
Tenra flor, a esperança malograda
Do mimoso matiz caiu despida:
Pede meu coração mortal ferida,
Só aos ditosos a existência agrada;
Vida entre angústias equivale ao nada,
No risonho prazer consiste a vida.
Eia, amante infeliz, teu fim procura!
Fantástico terror não te reporte,
Nos túmulos não reina a formosura.
Diga triste letreiro a minha sorte;
Dai-me piedosa sombra à sepultura
Teixos, ciprestes, árvores da morte.
Réplica:
Arquétipo real
Um mimoso matiz de almo modelo
Que ao mundo se apresenta assaz formoso
Para tornar um triste tão ditoso
Que alegre se transmute só de vê-lo
Converte-se no nada embalde o zelo
Com cujo emprego conservou-se airoso
No espaço muitas vezes prazeiroso
Do mundo, a conquistar todo o desvelo:
A cova encobre podridão somente
De tal invólucro tão delicado,
Visão fugaz do verdadeiro ente
De que a matriz conserva etéreo estado
Na dimensão real, eternamente
Para onde eternamente está fadado.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - portugal
12/10/2009