Bocage e a espiritualidade (9)
Bocage escreveu:
(Ao sono, para que lhe represente a imagem da amada)
Ó tu, consolador dos malfadados,
Ó tu, benigno dom da mão divina,
Das mágoas saborosa medicina,
Tranquilo esquecimento dos cuidados:
Aos olhos meus, de prantear cansados,
Cansados de velar, teu vôo inclina;
E vós, sonhos d`amor, trazei-me Alcina,
Dai-me a doce visão de seus agrados:
Filha das trevas, frouxa sonolência,
Dos gostos entre o férvido transporte
Quanto me foi suave a tua ausência!
Ah! Findou para mim tão leda sorte;
Agora é só feliz minha existência
No mudo estado, que arremeda a morte.
Réplica:
Sono, prelúdio de paz
Prelúdio da existência libertada
Dos aguilhões de espaço e tempo apostos
Ao mortal para o mundo onde dispostos
Tem os meios da vida limitada,
Benigno dom da mão divina instada
Por mitigar dos repelões impostos
As mágoas e (os) receios interpostos
Nesta passagem tão atribulada,
O sono é da esperança o mensageiro
Hábil de consolar no dia a dia
O pobre transeunte passageiro,
Lembrando-o de que é carta de alforria
De um mais longo e austero cativeiro
O viver deste orbe na porfia.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
15/10/2009