Bocage e a espiritualidade (11)
Bocage escreveu:
(À memória de Armia)
Quando meu coração de amor vivia
(Ufana a liberdade em ver-se escrava),
E quando para mim se variava
O céu num riso, o céu num ai de Armia:
Das escuras irmãs a mais sombria,
E que mais com seu peso o mundo agrava,
Na vista divinal que me encantava,
Roubou luz à minha alma e luz ao dia:
Não mais, Dor, fado meu, Dor, meu costume;
Cedo a paz gozarei, que o peito anela,
Nos olhos de meu bem, do céu já lume:
Junto à ninfa imortal na estância bela
Os dias perenais, que vive um nume,
Irei (nume em ser seu) viver com ela.
Réplica:
Deuses em potencial
Deuses vós sois, o Cristo disse um dia
Aos seus apóstolos desentendidos
Do alcance destes termos destemidos
Assim lançados, sábia profecia:
Não que inda hoje, após a longa via
De dois mil anos que já são vencidos
O homem tenha assim tais dons cumpridos
Do mundo na indômita porfia.
Aos dias perenais que vive um nume
Refere o vate no viver daquela
Que o já levara ao céu, da vida ao cume,
Pois só o amor que lhe inspirou revela
O almo sentir de cujo haver se assume
Para gozar a paz da estância bela.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
26/10/2009