Bocage e a espiritualidade (15)
Bocage escreveu:
(Recuando do suicídio ante a lembrança da Eternidade)
Aquele a quem mil bens outorga o Fado
Deseje com razão da vida amigo
Nos anos igualar Nestor, o antigo,
De trezentos invernos carregado:
Porém eu sempre triste, eu desgraçado,
Que só nesta caverna encontro abrigo,
Porque não busco as sombras do jazigo,
Refúgio perdurável e sagrado?
Ah! Bebe o sangue meu, tosca morada;
Alma, quebra as prisões da humanidade,
Despe o vil manto, que pertence ao nada!
Mas eu tremo! … Que escuto? … É a verdade,
É ela, é ela que do Céu me brada:
Oh, terrível pregão da eternidade!
Réplica:
Benigno pregão da Eternidade
Sujeito às injustiças, mal fadado,
Premido por ignóbil tirania,
Vencido quase sempre na porfia
Da vida, ante os medíocres subjugado:
De lutas vãs no empenho já cansado,
Farto de contemplar a hipocrisia
Lograr lugares de alta hierarquia
Que só incompetentes têm logrado,
O homem são terá disposto um dia
O ter da vida injusta renunciado,
Que o desespero indica-lhe tal via,
Mas treme aonte o pregão do Céu bradado:
A Eternidade em tempo se anuncia
Que a verdade repõe de seu legado.
Antonio Carneiro (Bélier)
V.N.Gaia - Portugal
16/11/2009